Ir. Jefferson Bonomo, fms
Nesta e nas próximas semanas, somos convidados, pela Igreja Católica, a imergir em um novo tempo que orienta a espiritualidade e a vida de fé dos cristãos. Trata-se do Tempo da Páscoa. Nestas sete semanas, até a Vinda do Espírito Santo sobre os discípulos, em Pentecostes, temos uma grande mensagem a acolher e anunciar: A morte não tem a última palavra, pois Cristo ressuscitou dos mortos. Ele vive e está em nosso meio.
Sem dúvida, trata-se de uma mensagem de esperança que alimenta nossa fé e leva-nos a crer num outro mundo possível, marcado pela fraternidade, solidariedade e justiça. Contudo, como manter firme a fé no Ressuscitado num mundo cheio de conflitos, violências e ódio? O que muda na nossa vida dizer que acreditamos na ressurreição? Como viver relações de paz num mundo tão marcado pela violência?
Há pouco mais de um mês, temos acompanhado a guerra entre os países dos Estados Unidos e Irã. Como consequência desse conflito, o bombardeio de uma escola, na cidade de Minab, no território iraniano, ganhou grande notoriedade da mídia internacional. Naquela manhã de 28 de fevereiro, o ataque à escola iraniana deixou cerca de 175 mortos, entre crianças e professores. Como anunciar a força da Vida diante de um cenário marcado pela morte de crianças inocentes?
Certamente, também não foi fácil explicar o escândalo da cruz para os discípulos e primeiras comunidades cristãs. Por muito tempo guardaram na memória as cenas cruéis e injustas que permearam a execução de Jesus. Como pôde Deus abandoná-lo na humilhação e na vergonha da cruz? Justo ele que defendeu a causa do Reino e promoveu a vida dos pequenos e excluídos. Tendo sido assassinado, tudo perde o sentido — e será que todo o vivido com ele não passou de uma aventura ingênua? Deus irá abandoná-lo no sheol e toda uma vida que infundiu saúde e esperança aos enfermos e desvalidos se encerrará na sombra da morte?
Pela fé, a vida de Jesus não termina aí, na frieza de um sepulcro. Deus o ressuscitou e fez-lhe justiça. “Não ficou passivo e em silêncio diante do que fizeram com ele, mas devolveu-lhe, plenificada, a vida que lhe arrebataram de maneira tão injusta. […] As autoridades judaicas e os poderosos romanos mataram Jesus, mas não o puderam aniquilar” (PAGOLA, 2010). A vida saiu vitoriosa, pois Jesus foi ressuscitado pelo Pai.
Nos escritos do Evangelho, os autores sagrados expressam sua fé na ressurreição de Jesus por meio do relato de encontros entre os discípulos e o Ressuscitado. É Jesus quem toma a iniciativa e vai ao encontro deles e delas. Maria Madalena é a primeira a ser encontrada pelo Mestre.
Cada encontro se desenrola com pessoas, locais e experiências diferentes, no entanto, tanto no evangelho de Lucas quanto no evangelho de João destaca-se a saudação “A paz esteja convosco!” (Lc 24,36; Jo 20,19.26) pronunciada por Jesus ao encontrar-se com a comunidade dos discípulos. Após a saudação, também nos dois evangelhos, Jesus lhes mostra as mãos, os pés e o lado (Lc 24,39; Jo 20,20.27). É intrigante e até contraditório que, após desejar paz aos seus amigos, Jesus lhes mostre os membros de seu corpo que foram feridos pelos pregos e pela lança dos soldados.
O Ressuscitado é o Crucificado, portanto, nas chagas assinaladas em suas mãos, seus pés e seu lado encontram-se os sinais concretos da injustiça, da dor e da violência. O Mestre, entretanto, quer, por primeiro, nos ensinar a não esconder nossas feridas, sejam elas pessoais ou humanitárias e sociais. Porque a paz que o Ressuscitado oferece não é fugir da realidade ou ser indiferentes diante dos contextos de ódio e violência, mas acolher as mazelas da humanidade e atuar como promotores do diálogo e da comunhão.
Em seguida, após mostrar as chagas, ele convida Tomé a tocá-las (Jo 20,27), pois o encontro com o Ressuscitado exige que toquemos as feridas de Cristo em nossos irmãos e irmãs mais necessitados. A paz de Jesus Ressuscitado não se encerra em palavras, mas nos convoca à ação: ir ao encontro dos novos crucificados, tocar suas feridas e ser sinais de esperança, compaixão e cuidado.
No evangelho de Lucas, Jesus envia os discípulos e discípulas para que sejam testemunhas da experiência que vivenciaram com o Ressuscitado (Lc 24,48). Portanto, viver a Páscoa hoje significa assumir, com coragem, o chamado de Cristo para ser testemunhas da paz em meio às feridas da humanidade. Não se trata de negar a dor ou ignorar os conflitos, mas de testemunhar que a vida é mais forte que a morte e que o amor é capaz de transformar até os cenários mais sombrios. A saudação do Ressuscitado — “A paz esteja convosco” — torna-se, então, missão para cada discípulo: cultivar a esperança, tocar as chagas dos irmãos e irmãs e anunciar, com gestos concretos de solidariedade e justiça, que a última palavra pertence à vida.
VEJA MAIS
Curso de Eneagrama reúne participantes no Anchietanum
Tarde de Espiritualidade reflete lugar das mulheres
Exercícios Espirituais para jovens reúnem mais de 100 pessoas em Itaici



