Por uma geração de jovens líderes sem ressentimento

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Dimas Oliveira, SJ

Nos últimos anos, verificou-se uma onda de agressões verbais, acusações e discursos de ódio que inundou as redes sociais digitais, por conta de discussões ideológicas que tinham como pautas as questões políticas, econômicas, socioambientais etc. Pessoas de diversos estratos sociais apresentaram tais comportamentos, contudo a atuação de algumas lideranças juvenis chamou a atenção por sua eloquência e estratégias refletidas e elaboradas para atingir o grande público. A reflexão aqui apresentada não pretende investigar as motivações históricas ou sociológicas a respeito da origem desse comportamento, mas quer ajudar a lançar luzes sobre os perigos dessas condutas. Estas podem ser danosas, sobretudo, na formação de lideranças juvenis autenticamente cristãs.

“Amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5, 44). Essa é a máxima cristã que deve plasmar os debates de ideias sem deixar de lado o senso de justiça e paz que é próprio do Reino de Deus e que Jesus Cristo lutou tanto por sua construção. Infelizmente, ela está longe de ser alcançada quando o que está em jogo não é um debate sadio de ideias, e sim, uma inversão de valores. Portanto, um horizonte de compreensão que pode servir como ferramenta para tentar entender o motivo de tanto ódio, violência e rancor por aquilo que é diferente de mim pela forma de pensar e agir.

Podemos pensar esse fenômeno a partir do que aponta o filósofo alemão do século XIX, Friedrich Wilhelm Nietzsche, a respeito do ressentimento e da má consciência. O filósofo compreende o ressentimento como uma “força e intenção de dominar e preponderar sobre os demais, agindo, desta forma, como uma vontade de potência, organizada pelo rebanho que organizado pela fraqueza e dominado pela sede de vingança tem o intuito de eliminar e dominar os diferentes e estabelecer um rebanho dos iguais” (SCHILLING, Rodrigo Luis. O ressentimento em Nietzsche e o ódio na internet. p. 35). O ressentimento se dá como um “autoenvenenamento por meio de sentimentos como inveja, rancor e ódio, que ocorre quando sentimentos não podem ser descarregados para fora e voltam para o interior do homem” (PASCHOAL, A. E. Nietzsche e o ressentimento. p. 34).

Já em relação à má consciência Nietzsche compreende que se refere a algo que fora gravado “a fogo, para que fique na memória: apenas o que não cessa de causar dor fica na memória” (NIETZSCHE, F. W. Para a Genealogia da moral: uma polêmica. p. 31). E mais, quando a má consciência é apropriada pela pessoa ressentida, ela “irá transformar o devedor em culpado, em pecador, e irá ‘infectar e envenenar todo o fundo das coisas com o problema do castigo e da culpa’” (SCHILLING, Rodrigo Luis. O ressentimento em Nietzsche e o ódio na internet. p. 35). Ou seja, parece-nos ser possível encontrar pistas na filosofia de Nietzsche para compreender a etiologia desse fenômeno do ódio digital.

Podemos entender que o ressentimento, enquanto moral, e voltado para se tornar dominante, lança para o interior do ser humano sentimentos como “ódio, rancor e a sede de vingança, originadas da obstrução da reação daquele tipo de homem fraco que não consegue enfrentar as adversidades da vida” produzindo neste uma desordem interna (PASCHOAL, A. E. Nietzsche e o ressentimento. p. 163). Enquanto a má́ consciência, como processo inicial, internaliza as forças instintivas, que acabam voltando-se contra a própria pessoa. Sendo assim, a má́ consciência será́ capturada pela moral do ressentimento.

Em uma pesquisa feita com alguns jovens participantes da Rede Inaciana de Juventude – MAGIS Brasil, 90% deles disseram se sentir afetados de alguma forma por esse tipo de conteúdo de ódio propagado na internet. Apenas 33% acreditam que a motivação por detrás da produção desses vídeos é o ressentimento. A maioria, 67%, entende que esses vídeos estão relacionados ao desejo de exposição, autopromoção e ao interesse por monetização de seus autores. Porém, 90% dos entrevistados acreditam que conteúdos de ódio podem afetar a formação humana dos jovens, isto é, gerando uma cadeia de má influência que permitirá, futuramente, fazer com que mais jovens busquem as redes sociais como palanque para proferir discursos que têm como base o ressentimento. Isso nos faz ver uma possível aproximação entre o dado empírico e a formulação de Nietzsche em seus estudos.

Todavia, como formar jovens que sejam capazes de não ressentirem-se a ponto de evitar que a onda de comportamentos violentos em ambiente digital seja, ao menos, diminuída? Os autores nietzschianos sugerem que esses jovens podem desenvolver a habilidade de “liberar-se do sofrimento” de modo que seja possível uma “descarga externa”, bem como o desenvolvimento da “capacidade ativa de esquecimento” (GIACÓIA, Oswaldo. Nietzsche como psicólogo. p. 84). Quando os jovens não conseguem superar o ressentimento, “suas queixas têm o objetivo de provocar a culpa no outro, logo, ‘o triunfo do ressentimento atingirá seu ápice definitivo e vingativo quando lançar a própria miséria na consciência dos felizes’” (GIACÓIA, Oswaldo. Nietzsche como psicólogo. p. 85).

Ao se aproximar de mais um ano eleitoral, período propício para o crescimento do acirramento político entre grupos diversos, espera-se que as juventudes estejam preparadas para não se curvarem diante das injustiças, das fakenews e de qualquer outro tipo de manifestação de violência ou ódio. Ao se aprofundarem no conhecimento interno de Jesus Cristo, que os jovens e as jovens de hoje conheçam de perto a sua missão que é a “de aliviar o sofrimento humano”, isto é, de reconstruir “o ser humano ferido, fragilizado, privado de sua dignidade, sem poder dar direção à sua própria vida” (PALAORO, Adroaldo. A “autoridade” humanizadora de Jesus. s.p.).

Que “os traumas, experiências de rejeição e exclusão, as feridas existenciais, falta de perspectiva frente ao futuro, o peso do legalismo e moralismo, a força de uma religião que oprime e reforça os sentimentos de culpa, as instituições que atrofiam o desejo de viver” não sufoquem o sonho e a esperança das juventudes (PALAORO, Adroaldo. A “autoridade” humanizadora de Jesus. s.p.). Assim, “é urgente despertar em nós um ‘eu original’, que seja capaz de desmontar as armadilhas desses ‘egos’ que pululam nossa mente e nosso interior; um ‘eu fiel’ que recebe a Luz e a força de Deus ocultas no mais profundo de todo ser humano” para sermos, neste mundo, peregrinos e peregrinas da esperança e não do ódio, do medo e da insegurança (PALAORO, Adroaldo. A “autoridade” humanizadora de Jesus. s.p.).

REFERÊNCIAS

  • GIACÓIA, Oswaldo. Nietzsche como psicólogo. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2002.
  • NIETZSCHE, F. W. Para a Genealogia da moral: uma polêmica. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
  • SCHILLING, Rodrigo Luis. O ressentimento em Nietzsche e o ódio na internet. Prometheus, São Cristóvão, v. 11, n. 31, 2019. Disponível em: https://periodicos.ufs.br/prometeus/article/view/10544. Acesso em 30 jun. 2025.
  • PALAORO, Adroaldo. A “autoridade” humanizadora de Jesus. Ignatiana. Campinas, 2024. Disponível em: https://ignatiana.blog/2024/01/26/adroaldo-135/. Acesso em 1 jul. 2025.
  • PASCHOAL, A. E. Nietzsche e o ressentimento. São Paulo: Humanitas, 2014.

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