Vinícius Alencar
Neste mês de maio, em que somos convocados socialmente a refletir sobre o cuidado e a proteção de crianças e adolescentes a partir da Campanha Faça Bonito, torna-se urgente ampliar também o olhar para o contexto juvenil. Não apenas para produzir diagnósticos sobre as juventudes contemporâneas, mas para compreender algumas das causas estruturais que violentam simbolicamente os jovens hoje. Entre elas, existe uma dinâmica silenciosa, profundamente naturalizada e pouco questionada: o adultocentrismo.
Há uma frase que atravessa a experiência de muitos jovens: “você é muito novo para entender”. Ela aparece nas famílias, nas escolas, nas universidades, nas instituições religiosas, nos espaços políticos e até mesmo nas relações afetivas. Às vezes é dita explicitamente; outras vezes se manifesta em decisões tomadas sem escuta, em participações simbólicas sem poder real de incidência ou na constante suspeita lançada sobre a capacidade juvenil de discernir, criar e interpretar o mundo.
Essa lógica possui nome. O adultocentrismo refere-se à organização simbólica e social que coloca o adulto como medida normativa da existência humana. O adulto aparece como sujeito pleno da razão, da maturidade e da legitimidade, enquanto os jovens são compreendidos a partir da falta: falta experiência, equilíbrio, responsabilidade, capacidade crítica ou competência moral. O problema não está no reconhecimento da experiência adulta, que é necessária, importante e insubstituível, mas na transformação dessa experiência em critério absoluto de verdade e poder.
O sociólogo chileno Claudio Duarte afirma que o adultocentrismo produz uma relação profundamente desigual entre gerações, onde “a juventude é permanentemente interpretada a partir da incompletude” (DUARTE, Sociedades Adultocêntricas, 2012, p. 99). O jovem deixa de ser reconhecido como sujeito de saber e passa a existir apenas como projeto futuro. É valorizado não por aquilo que é, mas por aquilo que poderá vir a ser. Essa estrutura produz consequências profundas. Porque ninguém sai ileso de uma experiência que relativiza sua palavra.
O adultocentrismo não é apenas um modo de pensar; é uma forma de organizar relações sociais. Ele define quem pode falar, quem deve obedecer, quem possui legitimidade para decidir e quem deve apenas aguardar sua vez de existir plenamente. Em muitos espaços, o jovem é constantemente convocado a ouvir, adaptar-se e corresponder às expectativas adultas, mas raramente encontra espaços reais onde sua experiência seja acolhida como fonte legítima de reflexão, crítica e transformação.
Na prática, isso produz um aprisionamento simbólico da juventude em um lugar estrutural de insuficiência. O jovem passa a ser visto sempre como alguém “em preparação”, “em transição”, “em formação”. Sua existência concreta é esvaziada em favor de uma promessa futura. Mas uma vida que nunca é reconhecida no presente corre o risco de perder a própria experiência de pertencimento.
Na psicologia do desenvolvimento, diversos autores apontam que o reconhecimento é elemento central para a constituição subjetiva. O psicanalista inglês Donald Winnicott (1896–1971) afirmava que o sujeito se constitui na experiência de ser visto e acolhido em sua autenticidade. Sem ambientes suficientemente bons, capazes de legitimar a expressão do self, emerge um sujeito marcado pela adaptação excessiva e pela insegurança existencial (WINNICOTT, O Ambiente e os Processos de Maturação, 1983, p. 133).
Quando aplicado às juventudes, isso significa que espaços continuamente controladores, moralizantes ou invalidantes podem gerar jovens que desaprendem a confiar em seus próprios desejos, percepções e capacidades. Pouco a pouco, instala-se uma subjetividade fragilizada, marcada pelo medo de errar, pela necessidade constante de aprovação e pela dificuldade de sustentar escolhas próprias.
O psicólogo alemão-estadunidense Erik Erikson (1902–1994), em Identidade, Juventude e Crise (1976), compreendia a juventude como etapa decisiva de construção identitária. Para Erikson, o desenvolvimento saudável depende da possibilidade de experimentação, participação e reconhecimento social. Quando a sociedade oferece apenas controle ou suspeita, instala-se aquilo que ele chama de “confusão de identidade” (ERIKSON, 1976, p. 128): uma dificuldade profunda de perceber-se como sujeito legítimo no mundo.
As consequências disso aparecem de múltiplas formas nas juventudes contemporâneas: ansiedade extrema, sentimento permanente de inadequação, medo do fracasso, dificuldade de construir projetos de vida, baixa autoestima, dependência excessiva de validação externa e sensação de vazio existencial. Muitos jovens vivem hoje entre dois extremos igualmente violentos, ou precisam corresponder a modelos idealizados de sucesso e desempenho, ou sentem-se completamente descartáveis diante de uma sociedade que os considera imaturos demais para participar verdadeiramente.
Nossa sociedade tende a produzir sujeitos exaustos, pressionados pela lógica da performance e da hiperexigência (Sociedade do Cansaço, 2017). Entre os jovens, isso se manifesta de maneira intensa quando eles precisam provar continuamente que são capazes, maduros, produtivos e interessantes. E quando não conseguem sustentar essa pressão, frequentemente internalizam a culpa como fracasso pessoal, sem perceber que também estão submetidos a estruturas sociais adoecedoras.
Talvez uma das consequências mais graves do adultocentrismo seja justamente o silenciamento do desejo. Quando toda iniciativa juvenil é constantemente corrigida, suspeitada ou diminuída, o jovem aprende a desconfiar de si mesmo. E um sujeito que desaprende a confiar na própria voz torna-se mais vulnerável às múltiplas violências contemporâneas como sofrimento psíquico, individualismo extremo, dependência emocional, isolamento social e perda de horizonte existencial.
Mas o adultocentrismo não produz apenas sofrimento psicológico; ele produz também uma violência espiritual. Porque impede o jovem de perceber-se como lugar legítimo da manifestação de Deus.
A tradição cristã, contudo, aponta noutra direção. O Evangelho apresenta um Deus que entra na história assumindo a fragilidade da condição humana. Deus não salta a experiência do crescimento; Deus a atravessa. Existe algo profundamente desconcertante no fato de o cristianismo anunciar um Deus que foi criança, adolescente e jovem. Em Christus Vivit, Papa Francisco (1936–2025) escreve: “Jesus, eternamente jovem, quer nos dar um coração sempre jovem” (Christus Vivit, n. 13). E mais adiante: “Os jovens não são apenas o futuro do mundo: são o presente” (Christus Vivit, n. 64). A afirmação é teologicamente radical. Ela rompe com uma compreensão utilitarista da juventude. O jovem não é somente “preparação”. É presença de Deus agora. É lugar teológico. Palavra inédita de Deus ao mundo.
A teologia pastoral latino-americana vem insistindo nisso há décadas. O teólogo argentino Carlos María Galli afirma que a Igreja precisa reconhecer os jovens não como “objeto pastoral”, mas como “sujeitos eclesiais” capazes de renovar a experiência comunitária (GALLI, La Pastoral Urbana, 2011, p. 214). Acompanhar, jovens, nessa perspectiva exige mais do que formar comportamentos, exige ajudar a descobrir a singularidade vocacional diante de Deus. Talvez o maior desafio pastoral contemporâneo seja justamente este, o de abandonar modelos excessivamente tutelares e recuperar uma espiritualidade da presença e escuta.
Isso implica compreender que a pastoral não existe para domesticar juventudes, mas para acompanhar processos humanos e espirituais. Acompanhar significa caminhar junto, discernir junto, escutar junto. Significa ajudar o jovem a construir um projeto de vida que não seja mera adaptação às expectativas sociais, mas resposta livre, criativa e responsável à própria existência.
Nesse horizonte, tornam-se fundamentais os chamados socioespaços, ambientes comunitários, afetivos, culturais e espirituais onde o jovem possa experimentar pertencimento, elaboração de sentido, participação e reconhecimento. Socioespaços são lugares onde a subjetividade pode respirar. Lugares onde o jovem não é reduzido a desempenho, produtividade ou adequação moral. Espaços que fermentam liberdade, criatividade, protagonismo, consciência crítica e capacidade de sonhar.
Uma pastoral verdadeiramente comprometida com o cuidado e a proteção das juventudes precisa perguntar constantemente: nossos espaços geram medo ou liberdade? Produzem silenciamento ou participação? Formam sujeitos dependentes ou pessoas capazes de discernir a própria vida diante de Deus e da realidade? Porque cuidar não é controlar. Proteger não é sufocar. Acompanhar não é substituir o outro em suas escolhas. O cuidado pastoral nasce quando ajudamos o jovem a perceber que sua vida possui dignidade, voz e horizonte.
Talvez uma das tarefas mais urgentes de nossas pastorais e movimentos eclesiais hoje seja justamente fissurar estruturas adultocêntricas ainda presentes em nossos processos formativos e comunitários. Estruturas que, mesmo sem intenção, continuam tratando os jovens mais como receptores passivos do que como sujeitos espirituais e históricos. Romper com essa lógica exige construir relações menos verticalizadas e mais dialógicas, onde o jovem não apenas participe, mas possa verdadeiramente incidir, interpretar, propor e criar. Porque uma pastoral que não escuta profundamente as juventudes corre o risco de anunciar respostas para perguntas que os jovens já não fazem.
Mas existe ainda um movimento mais a priori que é o de deixar-se interpelar pelas juventudes. Não apenas ‘ensinar’ os jovens, mas aprender com eles. Não apenas conduzi-los, mas permitir que revelem nossas rigidezes, nossas linguagens esvaziadas, nossas estruturas autoritárias e nossos medos institucionais. Escutar verdadeiramente os jovens talvez seja uma das experiências espirituais mais exigentes do nosso tempo. Porque exige renunciar ao monopólio da verdade e reconhecer que o Espírito Santo continua falando através daqueles que frequentemente julgamos “novos demais para entender”.
Deixar-se interpelar pelos jovens, no fundo, significa também deixar-se interpelar por Deus. Talvez o Evangelho continue acontecendo justamente aí, quando uma comunidade adulta encontra coragem para ouvir as perguntas, os sonhos, as dores e os desejos das juventudes não como ameaça, mas como possibilidade de renovação humana, social e espiritual. Porque os jovens não são problema a ser resolvido. São presença a ser acolhida. São voz a ser reconhecida. São sementes de futuro já florescendo no presente.
E talvez sejam, hoje, algumas das palavras mais inéditas de Deus ao mundo.
Sustentar e testemunhar o desejo pode ser uma das formas mais profundas de evangelização no contexto contemporâneo. Somente quando nos aproximamos verdadeiramente das juventudes, de suas linguagens, inquietações, vulnerabilidades e potências, conseguimos decodificar sua gramática existencial. E é apenas a partir dela, com ela e por ela, que o anúncio do Evangelho se torna encarnado e significativo. A evangelização das juventudes não acontece apesar de sua cultura, de suas perguntas ou de suas sensibilidades, mas justamente através delas. Porque anunciar Jesus Cristo às juventudes é apresentar não um modelo abstrato de perfeição, mas a própria possibilidade de uma humanidade plena, reconciliada e livre. Jesus de Nazaré é, nesse sentido, a juventude plena, aquele que viveu radicalmente aberto ao desejo do Pai, ao cuidado com os outros e à construção de um mundo onde cada vida pudesse florescer com dignidade.



