Pe. Anísio Tavares, CSSR
A elaboração de um projeto de vida é tarefa audaciosa e necessária, especialmente para as juventudes. É ocasião de profundo discernimento que integra liberdade e responsabilidade com a dimensão temporal do existir: o passado (história), o presente (condição atual) e o futuro (direcionamento e planejamento). O passado evoca gratidão por tudo o que nos foi concedido no berço familiar, na escola, na Igreja e nos demais círculos de relação e interação. O passado também evoca a consideração misericordiosa de limites pessoais próprios e de quem nos acompanhou, de fatos e situações que não deixaram boas marcas em nossa história.
Um projeto de vida frutuoso pressupõe abertura de coração para significar e ressignificar os acontecimentos que compõem o existir. Sem a significação, tudo o que recebemos seriam “coisas do passado” que “obrigatoriamente teriam de nos oferecer”. A ressignificação abre portas para a verdadeira gratidão, pois tudo o que nos foi dado e concedido viver até agora pode ser interpretado de inúmeros modos de acordo com o passar do tempo. O passado não está fechado à semântica da vida!
E o futuro, é preciso afirmar, não está na dimensão do acaso. Justamente para isso fazemos um projeto de vida. A surpresas que o existir reserva para os tempos ainda não vividos precisam ser bem consideradas ao elaborar um projeto de curto, médio e longo prazo. As surpresas, que geralmente soam como acontecimentos positivos, também se apresentam como imprevistos que podem questionar profundamente um projeto bem elaborado. Por isso, um projeto de vida jamais será rígido, mas flexível na medida certa para acolher as surpresas e imprevistos do caminho.
As considerações passadas e futuras de um planejamento são feitas sempre no presente, no aqui e agora da elaboração de meu projeto de vida e de sua necessária revisão de estratégias para atingir metas e obter bons resultados. Um projeto de vida significativo não pode ficar no papel, nem na exteriorização prática de sua realização. Ele precisa decantar no profundo do coração para nortear a vida em todos os momentos. Se ficar no papel, vai “amarelar”; se for somente em vista de algo pontual, vai expirar. Mas se for construído em modo que faça arder o coração, aí ele vai ser válido para toda a vida.
A experiência dos caminhantes de Emaús (Lc 24,13-35) podem iluminar esse momento de crise que as juventudes atravessam ao elaborar o projeto de vida. Em uma sociedade freneticamente conectada pelas redes sociais digitais, com novas possibilidades de relação e trabalho, não poucas vezes falta o essencial: o sentido da vida. O desânimo letárgico trazido pela presentificação sem passado e sem perspectivas, cuja lógica do scrooling não permite olhar além da bolha filtrada de pensamento único, desafia grandemente as juventudes no reconhecimento do sentido existencial profundo que rege a vida. Deixemos que a narrativa dos três caminhantes de Emaús nos revele a importância do sentido existencial em um projeto de vida à luz da fé.
Caminhando juntos, mas tristes
Lc 24,13 nos narra que dois discípulos caminhavam na direção de Emaús, três dias após a crucificação de Jesus. Enquanto caminhavam, conversavam sobre o que havia acontecido (v. 14). Nesse momento chega o terceiro caminhante: é Jesus Ressuscitado. Essa informação só nós, leitores, sabemos. Para os dois, era um estrangeiro desinformado a respeito dos últimos acontecimentos de Jerusalém. O contexto era de frustração total de um projeto de vida compartilhado na comunidade discipular. Com a morte violenta e ultrajante do Mestre na cruz, a libertação de Israel – e tudo o que isso podia significar – tinha terminado no calvário. Por isso estavam tristes.
A tristeza que transparece no rosto deles tem raízes profundas no coração desorientado. Eles tinham deixado tudo para seguir o Nazareno. O que restava fazer se não voltar atrás? Tristes e desiludidos, voltam-se para si mesmos e estão como que cegos (v. 16) para Aquele que é a Ressurreição e a Vida. Conseguem ver somente o passado trágico e o presente carregado de desilusão e sofrimento. Caminham juntos, mas tristes. Não havia mais esperança: “três dias já se passaram” (v. 21).
A narrativa da vida faz arder o coração
Jesus Ressuscitado não se apresenta a eles, mas os conduz a uma profunda ressignificação do passado, no caminhar do presente, em vista do futuro. Ao narrar tudo o que foi dito sobre Ele na Lei, nos profetas e em toda a Escritura (v. 27), Jesus reconstrói naqueles corações o sentido existencial perdido com o evento da cruz. A reconstrução de sentido traz também uma correção profunda sobre o modo como haviam compreendido a salvação anunciada e realizada por Cristo. Se no projeto de vida deles estava contemplado uma reviravolta política, na qual assumiram postos de poder e governo, fama e reconhecimento, agora são chamados a reorientar os planos traçados. Ao invés de olharem para si mesmos, a narrativa do “caminhante desconhecido” aponta para a missão do Filho de Deus que é Servo da humanidade, que a ela ama e por ela se entrega. Por ela também ressuscita e chama a viver segundo seu sentido existencial: vida que se autopreserva se perde; vida que se doa, frutifica (Jo 12,24; Lc 9,24).
A narrativa daquele “caminhante” que fala do Messias esperado nas Escrituras, os toca profundamente. Eles percebem que o coração começa a arder, ainda que não compartilhem verbalmente o que sentem. Aqui a tristeza começa a ser rompida pela revisão dos significados profundos que os tinha levado a deixar tudo e seguir “o filho do carpinteiro” (Mt 13,55). Importantíssimo notar que “o caminhante estrangeiro” não compartilhou com eles nenhuma fake news! Ele não disse que o Cristo resolveria todos os problemas e que seus seguidores gozariam de boa vida, com “sombra e água fresca”. Não! “Apenas” reorientou a bússola existencial deles no sentido do amor que se doa, se entrega, salva e liberta.
Fica conosco – agora tudo faz sentido
A noite estava chegando. Era o momento para uma pausa de descanso (v. 28). Os corações já estavam ardendo pela palavra e presença daquele “caminhante estrangeiro”. Mesmo que Ele os tenha chamado à atenção — “Como sois sem inteligência e lentos para crer…” (v. 25) — ousam acolhê-lo: “Fica conosco!” (v. 29). Ao entrarem e porem-se à mesa, aquele “estrangeiro” toma o pão, abençoa-o e o distribui… Eis que os olhos dos dois “se abrem” para reconhecer o Ressuscitado, no próprio momento em que Ele desaparece da vista deles (v. 30-31). Esse fato enigmático aponta para a grande verdade: a partir desse momento, Jesus Vivo está no coração deles. Agora confessam que seus corações estão abrasados. A chama vocacional é reacendida pela experiência pessoal com Jesus Ressuscitado; os olhos estão abertos para olharem além de si mesmos… Agora a noite já não os assusta mais! Sem medo da escuridão, retornam à comunidade de Jerusalém.
O encontro com o Ressuscitado restaura neles e verdadeiro sentido da vida. Agora tudo faz sentido para eles. Não é um sentido ilusório, inventado, falso, mas um sentido que os fará enfrentar sem medo os perigos da noite e a assumir com liberdade e responsabilidade a missão a eles confiada. É um sentido que aquece os corações, abre os olhos e oferece um novo rumo para novamente projetar e assumir a vida nova em comunidade (v. 32-33).
De coração e olhos abertos no caminho da vida nova em Cristo
Essa bela página do evangelho segundo S. Lucas abre horizontes profundos para as juventudes ao elaborar um projeto de vida. A contemporaneidade marca uma mudança de época profunda, conforme nos alertou tantas vezes Papa Francisco. Essa mudança epocal nas dimensões cultural, religiosa, econômica e política também toca profundamente as subjetividades. As juventudes vivem esse processo ainda mais intensamente ao experienciar em nível pessoal e comunitário as grandes mudanças que envolvem a passagem da adolescência à juventude. Enfrentar os desafios da formação acadêmica em sintonia com a vida profissional e financeira, afetiva e relacional exigem acompanhamento em tempos de incertezas e inseguranças.
Nesse sentido, a dimensão afetivo-emocional-relacional precisa ser considerada seriamente num projeto que abarque a integralidade da vida. É mais que urgente considerar o horizonte do ser em uma sociedade hiperativa e focada no ter e no consumir. Daí a importância de sintonizar-se interiormente e relacionalmente a fim de que as crises e as tentações do individualismo não apaguem a chama do sentido da vida. Coração e olhos abertos são capazes de compreender a vocação para além de uma escolha bem-sucedida profissional e financeiramente. A vida nova em Cristo ressuscitado abre caminhos de realização para as juventudes sedentas de um mundo mais humano, fraterno, justo e pacífico.
Com os três caminhantes de Emaús aprendemos que é possível superar as tristezas e frustrações por meio do diálogo e da partilha do Pão e da Vida. O Ressuscitado caminha conosco e nos aponta para o sentido essencial do amor que ilumina integralmente a nossa existência, reforça em nós a liberdade autêntica e nos encoraja diante das responsabilidades que temos de assumir. Cristo ontem, hoje e sempre ilumina nosso passado, presente e futuro, dando vida aos nossos projetos nesse momento importante de projetar a vida!



