Kennedy Amorim de Souza
O mês de maio, tradicionalmente dedicado a Maria, convida-nos a olhar para a Mãe de Jesus não apenas como figura de devoção, ternura e proteção, mas como uma mulher que viveu profundamente a experiência de discernir, escolher e assumir um projeto de vida. Em Maria, as juventudes encontram mais do que um exemplo de fé: encontram uma companheira de caminho, alguém que também precisou escutar, perguntar, confiar, caminhar e permanecer fiel diante do desconhecido.
Falar de projeto de vida, para as juventudes, é tocar uma das perguntas mais profundas da existência: o que fazer da própria vida? Essa pergunta não se limita à escolha profissional, à construção de uma carreira ou à organização de metas pessoais. Embora essas dimensões sejam importantes, o projeto de vida vai além. Ele envolve sentido, identidade, afetos, valores, vínculos, sonhos, responsabilidade e vocação. Como afirma Viktor Frankl (2015), a busca de sentido é uma força fundamental da existência humana, pois a pessoa não vive apenas por prazer ou poder, mas pela necessidade de encontrar um sentido para sua vida.
Nesse caminho, Maria aparece como uma referência profundamente atual. Ela não teve diante de si um futuro totalmente explicado. Não recebeu um roteiro pronto, sem riscos ou incertezas. No relato da Anunciação, Maria escuta o anúncio do anjo, sente-se perturbada, questiona e busca compreender: “Como acontecerá isso?” (Lc, 1, 34). Esse detalhe é importante, pois mostra que a fé de Maria não elimina a pergunta. Pelo contrário, sua fé passa pelo diálogo, pela inquietação e pelo discernimento.
Muitos jovens também vivem essa experiência. Diante das escolhas da vida, surgem medos, dúvidas, pressões e inseguranças. Há quem cobre respostas rápidas: que curso fazer, que profissão seguir, que futuro construir, que lugar ocupar na sociedade. Soma-se a isso a pressão por desempenho, a comparação constante nas redes sociais, a instabilidade dos vínculos e a sensação de que é preciso “dar certo” o tempo todo. Nesse contexto, Maria ensina que a vida não precisa ser respondida com pressa superficial, mas com escuta profunda.
O “sim” de Maria não foi um ato automático. Foi uma resposta livre, amadurecida na confiança. Ao dizer: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc, 1,38), Maria assume uma direção para sua vida. Ela aceita participar de um projeto que não nasce apenas de seus desejos pessoais, mas do encontro entre sua liberdade e o chamado de Deus. O Papa Francisco recorda que a vocação é um dom exigente, que faz a pessoa crescer e transforma a própria vida em dom para os outros (ChV, 289). A exortação Christus Vivit é dirigida aos jovens e apresenta Cristo como aquele que mantém vivos os sonhos, projetos e grandes ideais da juventude.
É aqui que Maria ilumina de modo especial a experiência juvenil do projeto de vida. O jovem, muitas vezes, pergunta: “O que eu quero ser?” Maria ajuda a ampliar essa pergunta: “Para quem eu quero viver?” e “Que bem minha vida pode gerar?”. Um projeto de vida não se mede apenas pelo sucesso individual, mas pela capacidade de transformar dons, sonhos e escolhas em serviço, cuidado e compromisso com o Reino de Deus.
A economia da vida de Maria mostra que todo projeto verdadeiro nasce da escuta. Antes de agir, ela escuta. Antes de responder, ela acolhe. Antes de partir, ela discerne. Em um tempo marcado pelo excesso de vozes, opiniões e estímulos, essa atitude é essencial. A juventude é constantemente convidada a consumir, produzir, aparecer e responder. Maria, por outro lado, convida a silenciar por dentro, perceber os movimentos do coração e perguntar: aquilo que desejo me aproxima de Deus? Torna-me mais livre? Faz-me amar mais? Coloca-me a serviço da vida?
Na tradição de Santo Inácio de Loyola, essa pergunta ganha profundidade. Nos Exercícios Espirituais, Inácio afirma que a pessoa deve viver “Desejando e escolhendo aquilo que mais nos conduz ao fim para o qual somos criados” (EE 23). O projeto de vida, iluminado por essa perspectiva, não se reduz a escolher entre opções boas ou ruins, mas a reconhecer, entre muitas possibilidades, aquilo que mais conduz ao amor, ao serviço e à liberdade interior. Na primeira semana dos Exercícios Espirituais, vemos expressa essa orientação de escolher o que mais conduz ao fim para o qual se é criado a partir da reflexão sobre o “Princípio e Fundamento”.
No entanto, o discernimento de Maria não termina nela mesma. Depois da Anunciação, ela se levanta e parte apressadamente ao encontro de Isabel (Lc, 1,39). Esse movimento revela que o projeto de Deus, quando acolhido, não fecha a pessoa em uma espiritualidade intimista. Ao contrário, envia ao encontro do outro. O Papa Francisco destaca Maria como aquela que se levanta e parte, mostrando uma fé que não fica parada, mas se transforma em serviço e missão (2022).
Esse gesto de Maria é profundamente significativo para as juventudes. Ela havia acabado de receber uma notícia que mudaria completamente sua vida. Poderia ter ficado centrada apenas em suas preocupações, medos e perguntas. Mas sua primeira atitude é sair de si. Maria nos ensina que o projeto de vida não amadurece no isolamento. Ele se fortalece quando encontra o rosto do outro, especialmente de quem precisa de cuidado, presença e esperança.
A visita a Isabel mostra que a vida ganha sentido quando se torna encontro. Em uma cultura que tantas vezes valoriza a autonomia como independência absoluta, Maria revela uma autonomia diferente: a liberdade de quem escolhe amar e servir. Seu projeto de vida não é autorreferente. Ela não faz de sua vocação um privilégio pessoal, mas uma missão compartilhada. A juventude que aprende com Maria descobre que realizar-se não é viver apenas para si, mas fazer da própria existência um lugar de comunhão.
Essa dimensão dialoga também com Paulo Freire (1992, p. 10-11), para quem a esperança não é espera passiva, mas movimento, construção e compromisso com a transformação da realidade. Maria é mulher da esperança ativa. Ela não apenas espera a promessa de Deus; ela se coloca a caminho. Sua esperança tem pés, direção e serviço. Assim também o projeto de vida das juventudes precisa ser esperança em movimento: não apenas desejar um futuro melhor, mas participar da sua construção.
Essa dimensão é ainda mais clara no Magnificat. Maria canta a ação de Deus na história: “Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes; encheu de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias” (Lc, 1, 52-53). Seu cântico revela uma fé sensível às dores do povo e atenta às injustiças. Maria não canta um Deus distante da realidade humana. Ela proclama um Deus que olha para os pequenos, transforma estruturas e inaugura esperança.
Por isso, Maria não pode ser apresentada às juventudes apenas como modelo de docilidade. Ela é também mulher de coragem, consciência e profecia. Sua vida aponta para um projeto que une interioridade e compromisso, oração e justiça, fé e transformação da realidade. O Papa Francisco afirma que Maria caminha conosco, luta conosco e aproxima-nos continuamente do amor de Deus; nela, justiça e ternura se encontram (EG, 286-288).
A experiência de projeto de vida, iluminada por Maria, passa também pela capacidade de permanecer. O “sim” dado na Anunciação não foi vivido apenas no entusiasmo inicial. Maria precisou sustentar sua resposta ao longo do tempo: na simplicidade de Nazaré, na fuga para o Egito, nas incertezas da missão de Jesus, nas incompreensões do caminho e, sobretudo, aos pés da cruz. Ali, Maria permanece de pé (Jo, 19,25).
São João Paulo II apresenta Maria como aquela que avançou em sua “peregrinação da fé”, permanecendo unida a Cristo mesmo quando o caminho passou pela dor, pela obscuridade e pela cruz (1987). Essa imagem ajuda a compreender que o projeto de vida não é uma resposta pronta, mas um caminho que se revela progressivamente. A encíclica Redemptoris Mater aprofunda justamente a presença de Maria na vida da Igreja que está a caminho.
Essa permanência é uma palavra forte para as juventudes. Muitos projetos começam com entusiasmo, mas são provados pelo tempo, pelas frustrações, pelas perdas e pelas mudanças de rota. Maria ensina que projeto de vida não é apenas escolher; é também sustentar escolhas. Não é apenas sonhar; é aprender a atravessar as dificuldades sem perder o centro. Não é ausência de dor; é fidelidade ao amor mesmo quando o caminho se torna difícil.
Dom Helder Câmara dizia que “quando uma pessoa sonha sozinha, é apenas um sonho; quando muitos sonham juntos, é o início de uma nova realidade” (CÂMARA apud IHU, 2024). Essa frase ajuda a compreender que o projeto de vida não pode ser pensado de forma isolada. O sonho pessoal precisa se abrir ao sonho coletivo. A vida de Maria aponta exatamente nessa direção: seu “sim” pessoal torna-se bênção para muitos. Seu projeto acolhido em Nazaré abre caminho para uma história de salvação, comunhão e esperança.
No mês mariano, contemplar Maria é, portanto, revisitar a própria vida. É perguntar: tenho escutado com profundidade os apelos de Deus e da realidade? Minhas escolhas nascem da liberdade ou apenas da pressão externa? Meus sonhos incluem os outros ou giram somente em torno de mim? Tenho coragem de dizer “sim” ao que gera vida? Tenho disposição para levantar-me e partir em missão?
Maria ajuda a compreender que o projeto de vida não é um plano fechado, controlado e seguro. É caminho. É resposta progressiva. É discernimento contínuo. É abertura ao Espírito. É capacidade de deixar Deus ampliar nossos horizontes. Como recorda o Papa Francisco (ChV, 1), Cristo vive e quer cada jovem vivo, cheio de esperança e aberto à novidade que Ele oferece.
Por isso, Maria continua sendo profundamente necessária às juventudes. Ela não oferece uma fórmula pronta, mas um modo de caminhar. Ensina a escutar antes de decidir, a confiar sem deixar de perguntar, a servir sem buscar protagonismo vazio, a lutar sem perder a ternura e a permanecer sem endurecer o coração.
Neste mês mariano, olhar para Maria é reconhecer que uma vida plena não se constrói apenas com metas, mas com sentido. Não se sustenta apenas com conquistas, mas com raízes. Não se realiza apenas no sucesso pessoal, mas na entrega generosa. Maria, jovem de Nazaré, nos recorda que o verdadeiro projeto de vida nasce quando a liberdade humana se encontra com o amor de Deus e se transforma em missão.
Que as juventudes possam, como Maria, escutar os chamados que nascem no coração e na realidade. Que possam discernir seus caminhos com coragem, abrir seus sonhos ao Evangelho e fazer da própria vida uma resposta ao Deus que chama, acompanha e envia. Porque, no fim, talvez a grande pergunta do projeto de vida não seja apenas: “o que eu quero fazer da minha vida?”, mas sim: “como minha vida pode se tornar sinal de amor, esperança e serviço?”
REFERÊNCIAS:
BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução da CNBB. 18. ed. Brasília: Edições CNBB, 2012.
CÂMARA, Hélder. Frase citada em: INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS [IHU]. Hélder Câmara: 25 anos após a sua morte. São Leopoldo: Unisinos, 2024. Disponível em: unisinos.br. Acesso em: 22 mai. 2026.
FRANCISCO (Papa). Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. Roma: Vaticano, 2013. Disponível em: vatican.va. Acesso em: 22 mai. 2026.
FRANCISCO (Papa). Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christus Vivit: aos jovens e a todo o povo de Deus. Roma: Vaticano, 2019. Disponível em: vatican.va. Acesso em: 22 mai. 2026.
FRANCISCO (Papa). Mensagem do Papa Francisco para a XXXVII Jornada Mundial da Juventude. Roma: Vaticano, 2022. Disponível em: vatican.va. Acesso em: 22 mai. 2026.
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 2015.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
JOÃO PAULO II (Papa). Carta Encíclica Redemptoris Mater: sobre a Bem-aventurada Virgem Maria na vida da Igreja que está a caminho. Roma: Vaticano, 1987. Disponível em: vatican.va. Acesso em: 22 mai. 2026.
LOYOLA, Inácio de, Santo. Exercícios Espirituais. Tradução de R. Paiva, SJ. São Paulo: Edições Loyola, 2000. (Coleção Escritos de Santo Inácio).



